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O jornalismo e a produção de conteúdo na era dos dados

Sem dúvida os dados são uma das principais fontes e ferramentas do mercado atual, principalmente quando voltado ao digital. Áreas como marketing, publicidade e vendas encontraram no Big Data uma mina de ouro capaz de impulsionar resultados e evoluir estratégias. Mas se engana quem pensa que somente são beneficiados os setor ligados diretamente à imagem e valores. A produção de conteúdo também encontra inúmeras vantagens nos dados, tanto que há muito tempo já faz parte da realidade do jornalismo.

No âmbito jornalístico, os dados surgem como ferramenta e forma de composição, justamente com o intuito de tornar a produção em algo mais preciso e objetivo. Assim, os dados podem ser inspiração, complemento, embasamento, fonte, confirmação ou até a reportagem em si.

Obviamente, na era de liberação de dados e na produção massiva dos mesmos, utilizar dados na área do jornalismo ultrapassou as fronteiras das editorias específicas (economia ou investigativo) e tornou-se tendência em toda a redação.

“O jornalismo de dados avança – junto com a produção de informações digitais, o movimento de transparência e as leis de acesso à informação – e deixa de ser de nicho para ocupar espaço cativo no conjunto de técnicas essenciais da profissão”.

Natália Mazotte, coordenadora da Escola de Dados no Brasil.

Cenário cuja a pesquisa realizada pelo site trampos.com em parceria com a PolicyViz, em 2017, ilustra muito bem, ao descobrir que:

0%
dos repórteres usam dados para contar histórias regularmente (duas ou mais vezes por semana);
0%
das empresas nos EUA e na Europa agora têm jornalistas dedicados a dados para plataformas totalmente digitais

Parte da história 

Os primeiros registros de jornalismo realizado com tabulação de dados datam do século XIX, ou seja, os dados estão presentes desde as primeiras práticas do jornalismo como conhecemos hoje.

Um das primeiras reportagens conhecidas é do jornal britânico The Guardian, no ano de 1821, cujo texto apresentava uma tabela com o número de crianças matriculadas nas escolas de Manchester e de Salford, destacando quantas delas recebiam educação gratuita. Dessa forma, apontou-se que na realidade 25 mil crianças estudavam de graça, ao contrário do divulgado pelas estimativas oficiais, de apenas 8 mil.

Outro trabalho pioneiro foram os relatórios desenvolvidos por Florence Nightingale em 1858, nos quais as condições enfrentadas pelos soldados britânicos da época foram apresentadas por meio de gráficos complexos.

Diagrama estipulado por Florence Nightingale.

Já no século XX, um dos casos mais surpreendentes ocorreu na rede americana CBS, que em um modelo pioneiro se dedicou a coleta de dados para prever o resultado das eleições presidenciais de 1952. A partir de 5% das apurações, a equipe concluiu que Dwight Eisenhower venceria por 83,2%. Essa informação acabou não sendo divulgada, em virtude do receio de manipulação, mas, mesmo assim, foi assustadoramente certeira, já que o candidato acabou ganhando por 82,4%.

Alguns anos depois, em 1967, Philip Meyer – criador da expressão jornalismo de precisão, que veremos mais à frente no texto – desmistificou uma falácia preconceituosa das autoridades de Detroit, ao comprovar, por meio de dados, que não apenas pessoas de baixo nível educacional compunham os protestos na cidade, mas também diversos estudantes universitários.

No Brasil, as primeiras reportagens realizadas com dados surgiriam apenas na década de 1990. Nesse mesmo ritmo, só a partir de 2012 que as redações dos jornais brasileiros mais renomados incluíram em seu grupo profissionais ou equipes dedicadas especialmente a essa prática, tendo o Estado de S. Paulo como o primeiro pontapé, em seu projeto Estadão Dados.

Diferentes categorias 

Para entender as diferentes nomenclaturas do uso de dados no jornalismo, é necessário primeiro entender como é feito esse uso. Basicamente, a pauta ou assunto central do texto pode partir de uma questão/dúvida, de algo que você notou no cotidiano, de uma afirmativa de alguém ou dos próprios dados.

Independente do caso, o processo exige que o profissional dedique um tempo na busca de base de dados ou para criação de um, para em seguida coletar, tabular, analisar e cruzar os dados, tudo isso em busca de traduzir os dados, ou seja, entender o que eles querem lhe dizer.

Os dados falam, eles GRITAM! Estão repletos de informações para passar. Pode ser que você encontre neles um padrão de comportamento, um erro, uma resposta para sua questão, uma hipótese, um paradoxo, as possibilidades são múltiplas.

"Você não pode entrevistar 28 milhões de pessoas para uma matéria, mas pode facilmente entrevistar 28 milhões de registros (em uma base de dados) em minutos e encontrar padrões que estavam "escondidos" dentro das planilhas e que podem servir de base para reportagens tradicionais. Dados e tecnologia não substituem os melhores valores e princípios do jornalismo. Eles os complementam".

Giannina Segnini, famosa jornalista investigativa, em entrevista ao Jornal Nexo.

Esse processo aprimora a prática jornalística, evita a reprodução de erros e amplia o conhecimento social, além de quebrar a dependência excessiva nas fontes externas, principalmente quando se trata de fontes oficiais (o que se conhece como jornalismo de declaração).

Mas, claro, é necessário ter uma história, ter algo interessante a contar. Não estamos em busca de um relatório enfadonho e repleto de dados, isso não é jornalismo. É essencial, independente da quantidade de dados que você utilize, que o texto seja informativo, narre uma história, que contenha fatores humanos com o qual o público se relacione. Por isso, as fontes e entrevistas não se tornam dispensáveis, elas ainda são primordiais para ilustrar realidades e acontecimentos, somente não estão mais sozinhas.

Jornalismo DE dados

Produções jornalísticas norteadas por dados, que tornam-se o cerne da reportagem, o tema principal, a pauta.

Exemplo

Você acessa a base de dados sobre os custos dos Deputados Estaduais do seu estado e percebe que alguns valores gastos não batem, isso instiga a busca de novos dados e a realização de entrevistas para descobrir o porquê dos dados apresentarem essa discrepância.

Jornalismo COM dados

Produções jornalísticas que utilizam dados de forma a complementar, embasar ou ilustrar o assunto, contudo, o dado não é o centro do texto.

Exemplo

Você está escrevendo uma matéria ou texto sobre a história do seu município, para trazer mais informações e embasar sua escrita, você busca dados nos censos do IBGE, como população, práticas econômicas, níveis educacionais e outros.

Jornalismo de precisão

Conceito desenvolvido por Philip Meyer, cujo o significado é: jornalismo com o uso do computador associado à métodos de ciências sociais para tornar as informações mais precisas e menos suscetíveis a erro.

Exemplo

Alguma autoridade faz uma declaração sobre o funcionamento do SUS na sua região, para ter certeza das informações compartilhadas, você cruza elas com dados do DATASUS (Base de Dados do SUS) e também realiza um questionário ou faz um período de observação nas Unidades Básicas de Saúde.

Reportagem com Auxílio de Computador - RAC

Conceito originado a partir do jornalismo de precisão na década de 1990, cujo significado é: o computador como ferramenta na composição jornalística.

Exemplo

No processo de realizar uma matéria você realiza pesquisas na internet, utiliza base de dados digitais, cria tabelas em excel e faz infográficos em um software de design gráfico.

Processo de produção  

Em geral, os jornalistas já são considerados como tradutores do mundo, como aqueles responsáveis por transmitir e explicar à sociedade como as coisas estão ocorrendo (o quê, quando, quem, onde, como, porquê). No caso do uso de dados, existe um longo processo de traduzir os dados até atingir a informação que deve ser passada ao público, de forma legível, atrativa e que crie conexões com o leitor.

Desde textos de longo formato até matérias diárias de hardnews, esse processo nunca será simples, mas também não será um bicho de sete cabeças. É preciso conhecimento, várias tentativas e muita atenção para não se deixar enganar pelos números.

O início pode ser o mais difícil: encontrar os dados. Depois, é preciso selecionar os que lhe interessam, buscar novos dados para cruzá-los, desse cruzamento é possível analisar mais profundamente e encontrar informações preciosas para a reportagem. Essas informações devem também ser complementadas com casos de fontes, falas oficiais e narrativas que humanizem.

Na hora de colocar tudo no papel também pode ser desafiador, pois geralmente estamos repletos de dados e números que podem confundir ou entediar. Nesse momento, é preciso focar em um texto envolvente, além de planejar uma apresentação visual dos dados de forma atrativa, seja ao ilustrar com gráficos, infográficos, diagramas ou outras artes.

Veja um pouco mais do passo a passo desse processo neste infográfico:

Exemplos que merecem atenção  

Seja como jornalista, produtor de conteúdo ou leitor, os dados estão cada vez mas presentes na sua rotina, cabe a você recepcioná-los e mergulhar nessa aventura ou fugir da onda. Que tal explorar essa nova perspectiva?

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