O ócio como segredo da criatividade

Qual foi a última vez que você realmente parou e fez nada? Estamos falando daquele tempo de reflexão consigo mesmo, sem outras distrações. Para colocar isso em palavras mais próximas de nosso cotidiano, imagine a última vez que você esteve em uma fila ou esperando algo/alguém. Pergunte-se: o que você fez durante esse tempo? Para maioria de nós, a resposta fica entre sintomas de ansiedade e o aparelho mágico que é o telefone. Sobrou um tempinho, recorremos ao celular. Surgiu um silêncio, ligamos os aparelhos para exterminá-lo, seja com uma Netflix de fundo ou o tão amado podcast.

A presença de múltiplos focos de atenção se tornaram quase que naturais para as novas gerações. Estamos sempre divididos entre diversos estímulos e buscamos produtividade a partir deles. Torna-se cada vez mais difícil fazer com que a mente se foque em algo em específico ou vague sem direção ou objetivo. A cabeça está sempre a mil por hora em busca de algo a se fazer, como se não houvesse amanhã. E o mais triste de tudo isso, é que no final o sentimento que prevalece geralmente é: cansaço ou sobrecarga (ou ambos). 

Perdemos tanto o conceito do tempo ocioso, quanto a habilidade de aproveitá-lo ao nosso favor. Quando não estamos ocupados com trabalho, estudos, tarefas da casa ou os milhares de conteúdos (dos quais passamos mais tempo escolhendo que consumindo), estamos entediados. Mas note, até o tédio ganha uma nova conotação. Ele não leva mais ao tempo ocioso, ele simplesmente cria um senso de fadiga ou nos leva a busca desenfreada por mais estímulos. 

Em meio a todas as possibilidades, não sobram forças ou inspirações. Assim, quando chega a hora de produzir algo criativo, surge aquela frustração ou uma sensação de estar fazendo algo insignificante. Isso quando nos permitimos o tempo de se focar unicamente no ato de criar algo.

Tendo esses comportamentos emergentes em vista. Buscamos aqui um espaço de reflexão sobre algo que é recorrente em nossas próprias vidas como profissionais da indústria criativa. Para isso, reunimos neste texto diferentes perspectivas acadêmicas que abordam a conexão entre produção/criação e consciência criativa. Todas elas buscam entender qual a importância ou necessidade do tempo ocioso para a mente em meio a sociedade atual: imersa no mundo digital e voltada aos resultados individuais.

A sociedade do desempenho e do cansaço

Essas condutas não são apenas percepções pessoais, mas sim sintomas de uma sociedade, conforme analisa o filósofo sul-coreano Byung-chul Han em seu ensaio “Sociedade do Cansaço”. Segundo ele, atualmente, o maior senso de positividade nos leva a buscar o desempenho e produtividade como norte, em contraponto às décadas anteriores, quando a ideia de disciplina controlava nossas vidas.

“A sociedade do século 21 não é mais a sociedade disciplinar, mas uma sociedade do desempenho. Também seus habitantes não se chamam mais ‘sujeitos da obediência’. São empresários de si mesmos. (...) No lugar de proibição, mandamento ou lei, entram projeto, iniciativa e motivação. A sociedade disciplinar ainda está dominada pelo não. Sua negatividade gera loucos e delinquentes. A sociedade do desempenho, ao contrário, produz depressivos e fracassados”

Byung-chul Han

Os números vão de encontro a esse cenário: 98% dos brasileiros se sentem cansados mentalmente e fisicamente, deste a maior parcela está entre os jovens de 20 a 29 anos, conforme pesquisa realizada pelo Ibope em 2013. 

Nesta mesma linha, o sociólogo francês Alain Ehrenberg argumenta que esses sentimentos têm como origem o esforço do indivíduo de ser ele mesmo, ou seja, a pressão de dar seu máximo potencial, sempre autêntico e produtivo. Para ele, perspectivas como “trabalho é igual liberdade” e “tudo é possível, só depende de você” colaboram com isso. 

A importância do ócio

Na visão de Han, nós perdemos a prática do aprofundamento contemplativo do ser humano – em outras palavras, tempo ocioso. A razão disso estaria no excesso de estímulos e na inquietação de realizar várias coisas ao mesmo tempo. 

Até mesmo o trabalho em excesso ou como cerne da vida pode ser prejudicial. Nunca se trabalhou tanto antes e nunca se glorificou tanto o trabalho (a ponto de ganhar aspectos religiosos). Estamos conectados ao trabalho 24 horas por dia, sete dias por semana, graças aos celulares.

Mas, ao contrário do que imaginamos, isso não nos torna mais criativos, mas sim nos tira a capacidade de criar coisa novas. Tanto que uma pesquisa publicada pelo Instituto de Estudos do Emprego no Reino Unido, em 2003, concluiu que maiores cargas horárias de trabalho estão na verdade ligadas a uma queda de produtividade do trabalhador, em virtude do cansaço físico e mental. 

Isso sem falar que o ócio criativo é um dos fundamentos para a evolução intelectual e criativa da humanidade. Como colocado pelo famoso filósofo alemão Friedrich Nietzsche, a vida perde o sentido quando o ser humano expulsa os elementos contemplativos de sua rotina

“Os desempenhos culturais da humanidade, dos quais faz parte também a filosofia, devem-se a uma atenção profunda, contemplativa. (...) Essa atenção profunda é cada vez mais deslocada por uma forma de atenção bem distinta, a hiperatenção. Essa atenção dispersa se caracteriza por uma rápida mudança de foco entre diversas atividades, fontes informativas e processos. E visto que ele tem uma tolerância bem pequena para o tédio, também não admite aquele tédio profundo que não deixa de ser importante para um processo criativo. (...) Se o sono perfaz o ponto alto do descanso físico, o tédio profundo constitui o ponto alto do descanso espiritual”

Byung-chul Han

Outro estudo acadêmico destaca os benefícios dos estados de pensamento auto-gerados, como o vagar da mente ou o sonhar acordado. Segundo os acadêmicos Jonathan Smallwood e Jessica Andrews-Hanna, esses pensamentos permitem a liberdade da consciência, ajudam a criar planos de longo prazo, possibilitam a nos conectarmos com nosso eu passado e futuro, e podem providenciar uma fonte de inspiração criativa. Mas isso só é possível quando esse modo de pensamento ocorre naturalmente. Sobre condições de demanda e complexidade, esses pensamentos levam apenas a perturbações significativas no desempenho comportamental.

Lembrando que dedicar um tempo para deixar sua mente viajar não significa ter tempo adicional em sua rotina diária. Isso porque os principais momentos de desfoque da mente ocorrem durante tarefas costumeiras do nosso dia que não demandam concentração total – como tomar banho, arrumar a casa ou andar de carro. Não é para menos que os pesquisadores apontam que, no caso de adultos saudáveis, o ato de vagar a mente ocupa um terço do tempo acordado

Modo automático e modo consciente

Um estudo desenvolvido na Universidade de Boston e Universidade de Stanford, nos Estados Unidos, pelos pesquisadores Meryl Reis Louis, Robert I. Sutton, abordou essa ótica sobre a relação entre produtividade versus tempo ocioso, partindo da noção de atos conscientes (quando é necessário foco) versus atos automáticos (quando não é necessário foco).

Segundo a teoria final, um processo cognitivo eficaz não depende somente de estar em um desses estados em específico, mas sim de identificar como passar de um para o outro. Isso significa que aprender a alternar entre os dois modos melhora sua capacidade mental

Ou seja, compreender esse momentos são necessários e importantes para que a mente reflita, vague pelos caminhos de conhecimento e informação adquiridos ao longo do dia e, no meio do caminho, talvez encontre uma solução ou crie algo surpreendente. 

Todavia, se você borrar a linha entre ambos, em virtude de estímulos em demasia, será mais difícil de identificar em qual deles está. Por exemplo, se você cozinha enquanto assiste TV, ao invés de passar para o modo automático enquanto se corta um legume e para o modo consciente ao ver o próximo passo da receita, você acaba estimulando um processo cognitivo em sequência. Infelizmente, esse processo não é positivo, na verdade, cria um ambiente de estímulos sensoriais que oprimem sua concentração

Dessa forma, perde-se a habilidade de distinguir quando é importante ter foco e quando o foco não é necessário. Portanto, por mais que se tente anular esse tipo de pensamento, buscando um foco total e 24 horas por dia, o resultado será apenas frustrante e desperdiçará oportunidades preciosas de criação e reflexão. Para aproveitar ao máximo cada um dos modos, o básico é não tentar suprimi-los com distrações, seja criando situações de foco quando não se precisa estar focado ou criando desfoques quando é necessário o foco. 

Minimalismo digital

Estamos na era dos dados, o que significa que somos constantemente bombardeados com informações que buscamos absorver ao máximo. Contudo, existe um ponto em que alcançamos apenas a exaustão, no qual os dados já não são mais válidos, quando mais significa menos. Com isso em vista, Cal Newport, professor de ciência da computação na Universidade de Georgetown, nos Estados Unidos, cunhou o conceito de minimalismo digital como uma solução mais saudável.  

“Se você está apenas se expondo a informações interessantes, se você está apenas se expondo a estímulos, mas nunca tirando o tempo para realmente pensar sobre - para processar, olhar sobre diferentes ângulos, tentar colocar contra outros paradigmas ou estruturas que você possui em seu esquema mental atual - se você não faz esse trabalho de apenas estar sozinho com seus pensamentos, você está provavelmente extraindo apenas uma pequena fração do valor em potencial”

Cal Newport

Ou seja, a chave de transformar informação e inspiração em produtividade criativa não está exatamente em ser 100% ativo, presente, informado e estimulado, mas sim, está em tirar um momento para desfocar e contemplar as coisas, sem pressa ou compromisso com o tempo.  

Que tal tirar um momento para refletir agora? Você se identificou com esses conceitos? Talvez é a hora de alterar a forma como você interage com os múltiplos estímulos da sua rotina. Que tal ficar alguns minutos longe das telas?